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Olhei pro céu


Não posso deixar de pensar nesse desenho como uma reflexão sobre "Ensaio para a bala perdida" ou o "Bed Box" de Zé de Rocha, um dos meus artistas prediletos em minha geração.   ---   Mudando de assunto (mas juro que volto pra onde tava), tem uma música do grupo de pagode, Psirico, que diz, “olhei pro céu, chuva caiu, lá vem Psirico a mais de mil”. Depois de saber dela, pensei muito na experiência de ver o céu, olha-lo, e eu rodeado das coisas todas da terra – a matéria e as situações.   Ver uma pessoa deitada no chão, olhando pra cima, pro céu, despreocupadamente, admirando formas da paisagem, é uma imagem cada vez mais rara numa cidade em processo de redefinição de hábitos urbanos como Salvador. Nesse caso, muitas das iniciativas de construção do espaço comum não priorizam a pausa, a preguiça e o devaneio... ao contrário, o chão urbano é hostil e não adere ao corpo.   Por outro lado, curiosamente, a configuração do corpo deitado e parado, por conta das contaminações midiáticas, remete à morte e ao impasse das situações de violência e descaso. Muitas vezes esse registro do corpo morto é feito contrariando o corpo que sonha, extinguindo seu potencial... Nos deparamos com uma vertente incomoda da materialidade da vida.   Em muitas culturas, o céu é o espaço do sobrenatural e abriga a espiritualidade. Sua infinitude é pujante e inquieta a existência. Sua personalidade natural subjuga, fortalece e prenuncia a mudança.   "Olhei pro céu" é uma série de desenhos que venho fazendo onde aparecem desenhadas pessoas deitadas, relaxadas, olhando pra cima. A ambivalência do tema é o interesse neste trabalho e a inanimação do objeto ilustrado torna-se uma ferramenta para reforçar isso. Os personagens, não se sabe ao certo se estão vivos ou mortos.   Quando tenho chance proponho a algum amigo deitar no chão, descansar e olhar pra cima. Os desenhos de "Olhei pro céu" são resultado de ensaios fotográficos que vêm de experiências de descanso, conversa, brincadeira, estreitamento de relações... Uma busca pela mudança dos sinais do corpo no ambiente, exaltando o bem estar, um olhar sincero por nossas desolações e a expectativa do devir.   Além de tudo, me pareceu também uma boa oportunidade pra fazer uma homenagem e provocação ao trabalho de Zé. Uma chance pra gostar das coisas de Salvador e dialogar.   Pra saber melhor do que eu tô falando: http://www.zederocha.blogspot.com.br/